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Palimpsestos Marítimos nº 1

 

 

Deixava-me levar pelas falésias,

pelo vento, pela tarde.

Catava conchinhas como quem cata pensamentos.

Andava a esmo

por entre rochas

da qual sorvia a seiva salgada

do tempo.

Nas areias deitava

e dormia

e sonhava

com piratas, lobos do mar e tesouros.

Quão dourada era minha infância...

 



 Escrito por Gilson às 21h50 [] [envie esta mensagem]



Crítica ao Filme Alexandre - Parte 1

Eu sempre cometo o ato infame de ceder à propaganda da cultura de massa hollywoodiana e ir assistir ao “filme da hora”. Às vezes tenho decepções enormes (eu ainda tenho alguma espectativa...) ou então folgo-me em rir diante da idiotice do filme. Porém, desta vez, tive outras motivações para assistir a fita: o diretor Oliver Stone (um artista ortodoxo, mas provocante) e a indignação dos acadêmicos gregos e macedônios.

O filme tem o controle de qualidade para filmes épicos da velha Hollywood: é esplendoroso esteticamente. Seu roteiro – não linear – deixa a desejar pela complexidade desnecessária, inclusive com relação aos diálogos: a narrativa de Ptolomeu (um general de Alexandre que herdou o Egito do espólio do conquistador) aborda apenas alguns momentos (cruciais, é verdade...) da vida do herói.

Quanto à veracidade dos fatos, o diretor pecou em alguns momentos, em especial dois deles: quando Alexandre doma Bucéfalo (seu cavalo até à morte) de forma mágica e não segurando sua cabeça na direção ao sol como os próprios documentaristas da época relataram; e quando das bodas do pai: o diretor perdeu um excelente momento de expor uma das mais impressionantes frases de Alexandre: tendo desprezado Olímpia (mãe de Alexandre), o rei Felipe resolve casar-se oportunamente com uma princesa grega; neste casamento Alexandre tem sua primeira grande briga (oficial) com o pai. Filipe, no auge da contenda, indo ao encontro do filho para surrá-lo, cai bêbado no chão. Alexandre vira para os convivas e diz: “Este, senhores, é o Rei da Macedônia: um homem que tropeça ao passar de um leito para o outro". Uma frase insolente que demonstra a grandiosidade da personalidade do jovem.

Não há dúvida alguma que o filme encontra formas de provocar a invasão americana no Iraque, já que o conquistador alcança a mesma proeza, porém tratando-os com um respeito sequer visto atualmente. Impressiona o destemor do diretor no tratamento que dá à sexualidade de Alexandre; a forma explícita e terna com a qual ele narra a relação com Hefestion (até os historiadores costumam ser comedidos com esses fatos...).



 Escrito por Gilson às 10h45 [] [envie esta mensagem]



Crítica ao Filme Alexandre - Parte 2

Além de tudo, a película foi uma resposta à incompetência e mediocridade que reinaram na produção de Tróia – o mais desnecessário e ridículo dos filmes épicos de Hollywood (perde até mesmo para Cleópatra, que eu recomendo por ter se transformado em uma comédia “grandiosa” devido ao tratamento carnavalesco que os técnicos dão à maquilagem e aos figurinos, como também a alguns momentos do filme: a entrada de Cleópatra em Roma é imperdível!).

Porém o mérito de Stone está em como ele forja a personalidade de Alexandre, um ser repleto de contradições, medos, angústias, porém certo da única razão possível para a existência: a de se afirmar enquanto potência acima de qualquer ideologia ou moral. É assim que Alexandre marcha em direção à morte: afirmando a vida e todas contradições titânicas que se abrigam na alma humana.

É se impondo como ser desejante, destituído da culpa cristã e de todos os seus venenos debilitantes que ele se torna um ser Nietzscheano até à medula: homem do seu tempo, viveu com intensidade iconográfica o caos mental de um politeísmo sem fronteiras, que as eras vindouras haveriam de tentar organizar e dar sentido, à custa da morte – em vida – de todo ser que porventura caísse em suas armadilhas ideológicas.

Acima de qualquer exposição, Oliver Stone fala de um tempo em que o vir-a-ser era sentido como possível para os humanos; um tempo em que o homem, diante da natureza, encontrava o seu lenitivo absoluto: a possibilidade da vida diante da morte. Assim a grandiosidade do homem estaria na afirmação de seu corpo enquanto campo de contradições infindas por vontade de potência e não no soterramento, para o inconciente, dessas potências em prol de uma lógica cartesiana que, tendo prometido o paraíso ao homem, este apenas encontrou a desilusão, a morte em vida e – pior de tudo – uma prisão mental que a camisa-de-força da razão impõe de forma tão violenta quanto sorrateira.

Que isto sirva de alento a todos os contemporâneos que ainda acreditam nas filosofias decadentes que as burocracias nos fazem engolir para que morramos muito antes de termos nascido.



 Escrito por Gilson às 10h44 [] [envie esta mensagem]




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