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METALMANIA

 

Pois é meu amigo Grilo Falante, convidei pra ir e você não quis... Perdeu! Tá bom, tá bom, tá legal, eu aceito o argumento que você está de dieta e que essas audições pesadas fazem mal para a digestão. Concordo, eu mesmo acordei com um mau humor filho da puta que só diminuiu quando finalmente eu consegui um sinal positivo daquela loira que ando interessado ultimamente. Mas isso foi depois, bem depois, não tem porra nenhuma a ver com ontem à noite, ontem foi a noite do metal:

Ho YheH!Hahahahahah!!!! Pois é, né? Exclusive isso (sic). Não se sabe muito bem direito como, mas o fato é que acabei indo parar no bar "Entre Amigos II", fico imaginando como é que o primeiro acabou. Pior são os trocadilhos, afinal eu fui com um amigo muito doido que, aliás, teve o carro "abduzido" na noite anterior. Parece que os Ets levaram o carro dele para um desmanche, mas fora isso tá tudo bem, mesmo porque o cara não parava de imitar o Silvio Santos. Lálálálá! E perguntava: Se entre amigos é assim, imagina lá na Faixa de Gaza!

Fiquei imensamente constrangido logo à entrada quando me deparei com aquela imensa massa iganara vestida de preto, e olha que eu nem tinha ainda parado pra analisar os modelitos "fashion" da estética metal. Mal advertido pelos infames colegas de trabalho baixei, saravei, enfim coisei na parada vestido que nem um tenista, todo de branco, esporte fino, porém com uma certa protuberância pançística. Enfim. Lá estávamos nós: eu e aqueles adolescentes cabeludos, vestidos de preto. Pensei que o luto fosse por causa do enterro do bom gosto musical, ou então dos tímpanos de alguém. Hahahahahaha!

Mas enfim, já que estava lá precisava me divertir fazendo o que sei melhor, criticar. Tem uma dupla de dois caras (sem pleonasmo nem nada) parados do meu lado. O que está mais próximo é barbudo e cabeludo na mesma proporção e se parece muito com aquele personagem do filme Senhor dos Anéis, aquele rei que era anão e narigudo. Esses caras parece que ensaiaram uma espécie de porre sincronizado. Estão completamente imóveis assistindo aquela apresentação furiosa que emana barulhos ensurdecedores do palco. Numa mão um grande copo plástico cheio de cerveja, na outra o cigarrinho: é uma atrás da outra, os dois juntinhos.

Encostado no palco tem um cara muito parecido com o Gregory Hines, só que cheio de tatuagens e que mandou o dentista implantar dentes de vampiro! Ou mandou afiar os dentes, algo do gênero. Esse cara é o mais empolgado e, apesar dos dentinhos, um dos menos travestidos de metaleiros. Digo isso porque acabou de passar por mim um rapaz maquiado de calça jeans e coturnos, camisa preta e sobretudo (!) é isso mesmo véio, nesse puta calor o cara ainda teve coragem de vestir uma parada destas.

No intervalo entre uma apresentação e outra o barulho não cedeu nem um segundo. Acabou um show imediatamente entra a música mecânica piór do que estava antes. Um garoto muito cabeludo, parecia o "Floquinho", aquele cachorro esquisito do Cebolinha, enfiou a cara numa das caixas de som e ficou lá girando a cabeça e, consequentemente, a cabeleira. Dizem, aliás, que os metaleiros fazem isso pra ver se o cérebro pega no tranco. Hahahahahahaha! Achei o intervalo meio tedioso, várias garotas bonitas espalhavam-se pela parada e nem todas estavam tão sorumbaticamente disfarçadas de Mortícia Adams, agora iniciar uma parlamentação era algo simplesmente impensável, o barulho impedia até o pensamento de funcionar direito.

Pensei em várias sugestões para a organização do evento a fim de abrilhantar a parada, enquanto coisa. Por exemplo, aproveitando o clima hetero-nazista-facista-neo-positivista-direitista e gozado, porque não organizar um concurso pra eleger a "Garota Metaleira". Hein? A menina poderia ganhar uma tatuagem de brinde, ou um protetor auricular, ou um curso de libras (língua dos surdos) até pra ver se conseguia iniciar um papo com alguém. Valendo também os mesmos brindes para uma outra categoria de competição, em que poderia se eleger a melhor fantasia de metaleiro. Já pensou que irado véio? Que nem aqueles grandes Bailes de Gala (gay). Já imaginou o mestre de cerimônias fazendo aquelas vozes guturais:

- É isso aí galera do mal! Esse é o primeiro Gala Metal do Espírito Santo e agora na passarela o metaleiro Jeremias, desfila a sua fantasia "Conde Drácula vai ao maculelê".

Ou então.

- Na passarela Joãozinho Barra Pesada, apresenta o seu "O pós-vampirismo encontra o Trash e tá tudo Clean", patrocinado pela funerária "Agora só falta você".

Por falar em vozes guturais a última banda que se apresentou tinha um cantor talentosíssimo que conseguia conciliar e alternar arrotos com lancinantes gritos histéricos. É isso mesmo! Primeiro o cara fazia Arrooooooooooooout! Daí vinha um instrumental meio sorumbático que alguém me explicou se tratar de "Brutal Death Metal", em que o cantor se sacolejava no palco que nem uma enguia, uma lesma, uma coisa malemolente, enfim: os brutos também amam né?! Háhahahahah! Daí, do nada, o cara disparava a gritar que nem uma mulher doida sendo esfaqueada: Háaaáááááááááá!

Putz véio, quando vi já tinha ido embora! No dia seguinte, até perdi a hora. Acredite, ou não, simplesmente porque não escutei o despertador tocar! O ouvido fez greve, ou então tava de ressaca. Hahahahahha! Um abraço véio... cê perdeu!

Juca Magalhães



 Escrito por Gilson às 19h03 [] [envie esta mensagem]



A PAZ DO SENHOR É HARDCORE parte I

Pra fazer silêncio eu berro...

Rita Lee Jones

Caro amigo Grilo Falante, acabei vindo parar na Igreja Assembléia de Deus, né? Vim acompanhar o "Chefe" em uma visita a um evento tradicional dos evangélicos. Aqui estão reunidos pastores de todo o Espírito Santo alguns até de outros estados do Brasil, provavelmente aproveitando as férias de verão, afinal ninguém é de ferro, mas meus nervos são de aço. Como faz tempo que não te escrevo, e sei que estes assuntos de religião muito te interessam, resolvi deitar algumas palavras à respeito à titulo de bazófia e passatempo:

60 a 70% do público presente é formado por negros e mestiços, a esmagadora maioria aparenta ser de uma origem extremamente humilde. Todos passam por mim com grandes bíblias na mão, aquelas de capas pretas com "fecho écler" (Zipper). Caminham animados e risonhos e falam maquinalmente, à título de comprimento: A Paz do Senhor... Sabe que uma vez eu tive uma agenda preta que também fechava com zipper? Daí que um dia sentei com a agenda no colo, do lado de fora do Centro da Praia, pra engraxar os sapatos e lá pelas tantas um cara que estava zanzando por lá me perguntou se aquilo era uma espada. Não entendi a pergunta, mesmo porque eu estava distraido e o cara falou apontando para a região da minha pélvis, onde realmente fica uma coisa que assim pode ser classificada. Demorou um tempo pra eu entender que o rapaz simplesmente perguntava se minha agenda era uma bílbia.

Vejo as pessoas sentadas em grandes bancos de madeira, espalhadas em um enorme salão. As mulheres de meia idade – que são a maioria - ostentam expressões austeras e cabelos crespos espichados presos atrás em rabo de cavalo. Vestem roupas caseiras de tecido fino e cores muito berrantes, sobretudo o vermelho e o verde limão. Os homens parecem ter saqueado algum brechó da esquina, vestem ternos completamente fora de seus padrões físicos, seja de altura, comprimento ou outro qualquer. E as combinações? Tem um rapaz bem do meu lado de terno azul marinho e camisa preta, tambem vejo muitas camisas amarelas, verdes, vermelhas e sobretudo o goiaba. Muitos vestem-se com camisas da cor de goiaba, independente da cor do terno.

À direita fica o púlpito que é como um grande palco, na frente e no centro fica uma mesa enorme como aquelas de igreja com bíblia em cima e outras coisas. Atrás estão sentados os pastores presidente, segundo me informaram os únicos que recebem salário da Igreja e que são denominados "donos de campo". Foi até um conhecido que encontrei do lado de fora, quem me mostou esse detalhe: quando eles falam que um pastor é presidente de um tal lugar, dizem que o indivíduo é dono do campo. Quando o amigo falou: "esse que vai passando aí é dono de um campo lá em Terra Coisada". Eu pensei - vê só que cabeça de bagre a minha - que ele estivesse falando de alguém que investisse em lazer, tipo campo de futebol para aluguel, churrasco, enfim essas coisas.

Chama a minha atenção a pregação do pastor propriamente dita. No fundo do palco estão colocadas várias cadeiras onde estão sentados, lado a lado, em duas fileiras os presidentes e as autoridades. Lá em cima a proporção racial é inversa à da platéia, são quase todos brancos, a começar pelo pastor que está pregando com um forte sotaque nordestino. Prega em pé com um microfone sem fio na mão, andando muito empolgado de um lado para o outro do palco, por detrás da grande mesa. Ele alterna seu discurso com expressões do tipo "Aleluia!" e grandes modulações de dinâmica, às quais o público responde imediatamente em frenesi. Ele fala muito rápido e o som do lugar não ajuda, a acústica muito menos, a ressonância embola tudo. Parece uma transmissão de partida de futebol em rádio AM, num final de tarde de domingo, quando você é jovem e sabe que tem que acordar muito cedo no dia seguinte para ir a escola e que a primeira aula é de matemática com aquele professor idiota que você odeia profundamente. Um outro (des-) crente que estava a meu lado falou que o pastor parecia mais um locutor de rodeio, no estilo: Seguuuuuuura Jesus!!! Ou então: Aleluuuuuia Peão!!!

O pastor diminuiu o tom, fala – do que eu consigo entender – sobre os falsos e os verdadeiros adoradores. Tem um sujeito muito compenetrado que está bem ao meu lado com a mão esquerda no rosto, a outra segura com firmeza uma bílbia. Esse cara de vez em quando grita um "aleluia!" muito alto enquanto levanta um dos braços em sinal de devoção, seu corpo se balança pra frente e para trás. Olho em volta, várias pessoas estão na mesma situação, num banco de madeira próximo três ou quatro homens se abraçam e oram fervorosos de olhos bem fechados (Stanley Kubric, Sic.). Seguram sua bíblias com uma mão e com a outra fazem um saudação meio nazista, sacodem-se e gritam todos juntos, embolados, como numa peleja santa, um refrega!

A pregação já alcança mais de uma hora, agora o pastor está a mil, anda exaltado de um lado pra outro do palco e grita como um louco: servir e orar, servir e orar! (vai crescendo), servir e orar!! (cresce mais) servir e orar!!! (chega ao auge): Aleluia!!!!! A multidão está ensandecida, tudo é ruído, um barulho infernal, duas mil pessoas juntas se esguelando frenéticamente. Uma carga invisível de energia corre solta pelo ar, sinto a cabeça tonteando frente tamanha histeria coletiva. O pico da zoeira já se estabeleceu e estabilizou, o pastor está literalmente pulando no palco, instiga a multidão e sorri triunfante ante a resposta ensurdecedora. Vocifera confiante e desafiadoramente que o Senhor Jesus vai se fazer presente ali naquele momento. A multidão se agita e resfolega que nem um cavalo bravio, ante a possibilidade de ver o improvável acontecer. Tenho a sensação que as coisas vão realmente escapar do controle. Por via das dúvidas vou me colocando mais próximo da saída.

Um garoto, no meio da platéia, começou a pular e se curvar batendo os braços abertos como se quisesse voar. Um sujeito de terno amarelo, ou bege, vem correndo em sua direção e o pega pelo braço. Nessa hora pensei: vai por o menino pra fora, mas que nada... o cara, muito ao contrário, levou incontinente o jovem até em cima do palco. Lá o batedor de asas teve as duas mãos colocadas sobre a cabeça careca de um dos pastores da "presidência" e começou a pular que nem um doido, dando pinotes no ar. Como em resposta a multidão lançou altos brados em uníssono, é impossível distinguir qualquer coisa mais, nesse momento o culto virou um verdadeiro pandemônio.



 Escrito por Gilson às 11h17 [] [envie esta mensagem]



A PAZ DO SENHOR É HARDCORE parte II

Dois rapazes muito magros, de terno escuro vieram se postar bem embaixo e à frente do palco, cada um com um microfone na mão. Esses aí vão cantar, pensei. Passa um tempo, a gritaria permanece inalterada. A música finalmente começa, mas é abafada pela gritaria; logo o som cresce e dá pra reconhecer o ritmo: é um forrózinho sem vergonha! Nada mais adequado para terminar aquela fuzarca. Os rapazes cantam a música que falava de Jesus e coisas do gênero. Felizmente a cantoria era sinal que meu suplício tinha terminado, o chefe me dispensou e foi-se embora. Entrei no carro e segui para casa aturdido e mentalmente currado. O que mais me impressionou é que apesar deles desejarem a Paz do Senhor pra todo mundo, na hora de rezar o caminho deles é hardcore pra caralho!

Juca Magalhães

 



 Escrito por Gilson às 11h17 [] [envie esta mensagem]



SUPER HOMEM – A QUESTÃO

 

                                                                                                     ... por causa da mulher

Vocês sabiam que muitos homossexuais ativos pensam que não é certo serem taxados de viados? E que tem alguns caras que pensam que são mulher e que, portanto, os "homens" deles o são no sentido ortodoxo do termo. Talvez por causa disso muitos caras transem viados numa boa, como se fosse até uma espécie de brincadeira, malandragem, traquinagem sexual. O problema é quando as coisas saem do controle e quem menos se espera paga a conta e rifa a esfera... desculpem o inevitável trocadilho: eu perco o fio da meada, mas não perco a piada.

Uma bela mulher. Que bela o quê: linda! Loira, alta, curvas generosas e perigosíssimas. Norberto estava ficando, por assim dizer: bastante interessado. Todo dia ele a via passar serelepe por seu estabelecimento na pequena cidade de Princesinha do Norte. A beldade sorria em sua direção, as vezes aparentava alguma indecisão, voltava, demorava-se na frente da loja até que finalmente ia embora. Era difícil de acreditar, mas depois de um certo tempo Norberto teve certeza que aquele puta mulherão estava mesmo paquerando com ele, aliás, flertando como diriam os antigos, ou dando mole como diriam os mais jovens.

Com o passar dos dias nosso herói começou a apresentar sinais inequívocos de estar ficando realmente apaixonado. Se a mulher demorava a aparecer o cara ficava nervoso, rabugento com os empregados, atendia os clientes com displicência, má vontade. Em casa, antes de sair, arrumava-se com mais esmero, andou até perdendo o sono por conta da expectativa. De repente ela surgia, linda, leve, solta. Era como se o mundo parasse pra ver ela passar. Norberto suspirava de amor.

- Ái, ái...

- Que foi chefe?

- Que foi o quê, ô inxirida? Vai tomar conta lá do caixa. Ondé que já se viu?

Norberto quase deu um vexame, se apavorou todo, quando deu de cara com a loira dentro de sua loja. Era bem cedinho e lá estava ela olhando uns tecidos como se fosse a coisa mais natural do mundo. Achou melhor não se intrometer, afinal, ela já estava sendo atendida por um jovem funcionário e ele não queria despertar suspeitas, nem fomentar mexericos. A mulher rodou tudo e perguntou preço de um monte de coisas até que tiveram que consultar o chefe.

- Pode deixar que eu atendo a senhorita... – Era a primeira vez que o homem se acercava de seu luminoso objeto do desejo, contrariado ficou quando notou a grossa aliança de ouro que a mulher ostentava na mão esquerda.

- É senhora... – Sua voz era tão doce e inebriante quanto sensual e insinuante. Era como se dissesse que o fato de ser casada não significasse muita coisa, que a fruta estava em oferta da mesma maneira, só faltava aparecer um macho de verdade que ousasse "trepar" (com inevitável sacanagem) na árvore.

- A senhora né daqui não, né? Cidade pequena... a gente conhece todo mundo.

- É verdade. Eu e meu marido nos mudamos pra cá faz só uns dois meses. Ele veio pra dar aulas na faculdade nova.

- Há sei, sei... – A misteriosa mulher foi embora sem comprar nada. Deixou apenas generosos sorrisos que prometiam céus e infernos praquele modesto comerciante.

Os encontros se sucederam, Norberto foi ficando cada vez mais louco. Estranhamente, a mulher apesar de estar francamente o seduzindo era, ao mesmo tempo, escorregadia e etérea. Ficavam naquele jogo de gato e rato e não chegavam a lugar nenhum. Norberto foi ficando mais afoito e temerário, começou a cantar a mulher abertamente. Ela respondia com sorrisos enigmáticos e incertos, depois escapulia sem dar explicações.

Dia chegou em que Norberto estava muito distraído na fila do banco esperando a vez de ser atendido quando uma voz soou grave atrás dele.

- Olá Norberto, tudo bem? – A saudação tinha sido simpática e familiar, mas nosso amigo ficou fazendo aquela cara de quem sabe que é, mas não lembra o quê.

- A gente precisa conversar Norberto...

- Co-conversar o quê... eu te conheço amigo? – O cara era alto e bem apessoado, bem vestido até demais para aquela hora do dia. Tinha jeito de gente de cidade grande. O homem pegou Norberto pelo braço, falando de maneira que só seu interlocutor pudesse escutar e sibilou com seriedade:

- Eu tô sabendo que você anda querendo comer a minha mulher.... – Diante da surpresa Norberto rapidamente entendeu quem era o indivíduo e se enrolou todo fazendo o que todo mundo faz: negou com veemência.

- Não, não, quê que é isso? O senhor deve estar me confundindo com alguém. Eu sou um homem sério amigo e nem o conheço, muito menos sei lá quem é a sua mulher! – Mas o cara apertou forte o seu braço e, ainda sussurrando mandou Norberto se acalmar e abaixar o tom. Quando viu que o parceiro tinha quietado o faixo, o misterioso homem prosseguiu:

- Tudo bem rapaz, calma, tá tudo bem... – Norberto fez uma expressão de quem não estava entendendo. – ...está tudo bem mesmo. Eu deixo você comer ela. – Sem conter a surpresa Norberto elevou outra vez a voz.

- Cuméquié!?!

- Psiiiiu homem, que diabo! – Algumas pessoas em volta começaram a notar a discussão e a atitude suspeita da dupla, em cidedezinha pequena qualquer coisinha gera comentários e boatos. Recuperando-se da surpresa Norberto olhou à sua volta e, sentindo-se mais seguro, retomou interessado, ainda que desconfiado na mesma proporção:

- Deixa?

- Deixo, mas só que tem o seguinte: – O cara se achegou de Norberto e sussurrou em seu ouvido de maneira incisiva. - Pra chegar lá, antes você vai ter que passar por aqui.

- Cuméquié?!?

No fim de semana, na roda de amigos que, por sinal, já vinham acompanhando à distância a novela, Norberto finalmente resolveu contar todo o drama que foi pra finalmente poder consumar a sua intensa paixão. Quando chegou na parte do ultimato, do marido dentro do banco, ficaram todos pasmos do mesmo jeito que o rapaz já tinha ficado.

- E aí?... O que você fez?

- Cumi ué.

- Como assim? Deixa eu entender: você tá me dizendo que comeu com os dois?

- Cumi. – Falou encabulado.

As gargalhadas explodiram na mesa do bar, ainda mais por conta da evidente satisfação que Norberto ostentava. Era como um garoto traquinas que tinha conseguido ver a calcinha da Madre Superiora Diretora do Colégio. Entrementes, seu enigmático sorriso dava muito o que pensar.

- Tá bom Norberto, pela sua cara dá pra ver que o negócio foi bom... agora fala sério: com qual dos dois você gostou mais de transar?

Juca Magalhães



 Escrito por Gilson às 08h55 [] [envie esta mensagem]



O Centenário - Parte 1

Não há muita coisa que me faça sair de casa por esses tempos, mas sexta-feira eu tive um bom motivo: o lançamento da revista de um amigo, blogueiro de carteirinha, – o Rafael, do Pensatório, – que vocês vão encontrar o link dele, na coluna ao lado.

Exposição de fotos, instalações, venda de roupas alternativas e o melhor do som tecno bombando das caixas de som em meio à decoração underground...Muita gente bonita, bebida à vontade e... A revista, claro! O nome dela é sugestivo: Couché Avec Moi, e pretende ser uma revista de produção intelectual da nova geração de pensadores da Ilha de Vitória.

Fiquei muito feliz por ele; por vê-lo realizando seus sonhos, materializando suas formulações teóricas. Sempre ao lado de sua linda e eterna companheira, Juliana (blogueira do Cor de Rosa, também com link aí do lado...).

Mas foi o local que me chamou muito a atenção; que deflagrou uma nostalgia tremenda: o Centenário – um clube situado na borda da Praia do Canto, outrora um bairro residencial da aristocracia insular. Tinha uns vinte anos que não entrava nele.

Como todo bom garoto do interior capixaba, vim morar na capital para continuar meus estudos, de forma que, quando mudei para este bairro, era universitário. Já havia alguns edifícios e o perfil do local começava a mudar.

Às vezes, nos finais de semana, eu saía andando pelas ruas, viajando na arquitetura das casas – antigas e portentosas. Ainda havia algumas chácaras e, junto ao mar, à frente das castanheiras, enfileiravam as mais belas residências, que se abriam para a já aterrada praia, que dava nome ao bairro.

Em meio a toda esta aristocracia havia o Colégio Público Maria Horta e o Clube Centenário. Ambos voltados para os serviçais das casas circunvizinhas.

Durante os dias úteis, o colégio mantinha sua pacata rotina diária, mas nos finais de semana, o Centenário bombava para as domésticas, os motoristas, jardineiros, garçons...Era uma festa!



 Escrito por Gilson às 23h57 [] [envie esta mensagem]



O Centenário - Parte 2

Havia situações engraçadíssimas, como a arrumadeira da casa dos pais de uma amiga. Nas noites de Centenário, a menina saía para passear, acompanhada de uma prosaica sacola, onde levava – escondidas – as roupas de griffe da filha da patroa. No matagal ao lado da residência, a bonita se transmutava de humilde doméstica em fogosa patricinha local. Arrasava nas domingueiras, com os modelitos exclusivos, inimagináveis para as outras, que se roíam de inveja.

Mas havia também a rapaziada local que freqüentava os bares do Triângulo das Bermudas, o Xadrezinho e outros menos cotados. Todos lotados de meninas perfumadas e saltitantes pela calçada afora. Nas noites de final de semana, a Praia do Canto era puro deslumbramento feérico.

O negócio era que, a mesma rapeize, quando se apertava para pôr em dia a vida sexual, rumava decidida para o mesmo Centenário. Ali a concorrência era desleal: playboyzinhos contra motoristas, jardineiros, etc,etc...Mas o que valia mesmo era que a festa acontecia: o congraçamento festivo das classes em meio aos gritos histéricos de Gloria Gaynor e Donna Summer. Nas pistas deliravam ensandecidos os coraçõezinhos das moças...Era tudo muito ingênuo e divertido.

Os tempos mudaram, mas o Centenário ficou. Hoje espaço do underground capixaba onde rolam festas tecnos, eventos culturais e... Bailes da terceira idade.

À prova do tempo, o Centenário teima em ser uma alternativa ao establishment que marginaliza os velhinhos, as idéias e as atitudes dissonantes da cultura de massas planetária que, no passado separava fisicamente e socialmente os jovens de origens diferentes.

Fico feliz em ver que o Centenário continua um catalizador cultural e social da nossa querida ilha, formulando novas possibilidades para o futuro desta cidade que continua uma província.



 Escrito por Gilson às 23h56 [] [envie esta mensagem]



Ensaio nº 39 * Parte A

Galeão – Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro; numa tarde, de um dia qualquer um casal chega apressadamente de Marabá:

 - Ai Leandro...; dez horas de viagem!...

- Era a companhia mais barata – foi parando em tudo que era capital...

- Mas três conexões...

- Eu não tinha mais dinheiro, Verônica!

- O dinheiro acabou?

- Lógico! Você resolveu que a gente ia pela Air France para Paris...

- Tio Haroldo me disse que entrar na França pela Air France é outra coisa! A polícia da aduana é mais suave.

- ‘Tá, tudo bem...Eu ‘tô é muito cansado...

- Não é para menos...

- Aí, - fala ele maliciosamente, - você me dá mais um pouco do pó? Eu ‘tô a fim de dar uns tirinhos...

- Cadê as 5 g. que eu te dei em Marabá?

- Acabou...

- Como acabou? Você cheirou tudo na viagem?

- Pára com isso, minha querida...

- Como pára com isso! Bem que eu vi que você 'tava bebendo muito whisky...

- Dá aí, vai...

- Não dou Leandro...Deu muito trabalho para colocar lá...

- Lá onde?

- Na vagina seu idiota! – Falou sussurrando.

- Ah!, deixa disso...É mole colocar de novo...

- Você tem idéia de quanto isso está me incomodando?

- Qualé, Verônica! Pagando de sofredora agora! Libera aí o negócio...

- Você devia enfiar umas seis bananas no cú para saber o que eu estou passando...

- Dá aí, vai...

- Não Leandro! São 300 gramas...

- Pega um cigarro na sua bolsa – eu ‘tô nervoso...

- O único maço que eu tenho é aquele com as pedras preciosas...Porque você não vai comprar um?

- O dinheiro acabou...

- Tira do especial, no caixa eletrônico...

- Eu estourei a conta, para comprar as passagens...

- Então fica sem!



 Escrito por Gilson às 09h20 [] [envie esta mensagem]



Ensaio nº 39 * Parte B

- Eu quero o pó!

- Não dou!

- Eu ‘tô fissurado, Verônica!

- Eu ‘tô nem aí, além do mais a muamba é para a gente comprar nossa loja na França – não é para cheirar...

- Dá!

- Não dou!

- Sua puta!

- Olha como você fala comigo!

- Dá essa porra, agora!

- Não dou!, já disse!

-Subitamente Leandro avança sobre a calça jeans de Verônica, tentando abrir a braguilha à força. Os dois caem no chão debatendo-se.

- Socorro!

Três policiais se aproximam velozmente. Dois deles seguram Leandro pelos braços e arrastam-no para longe. Um deles ajuda Verônica a se levantar.

- Você o conhece?

Neste momento uma luz se faz na cabeça de Verônica.

- É meu ex-namorado. Eu estou indo embora e ele não quer! O senhor nem imagina o que eu sofri com ele...

Verônica debruça no peito do policial e chora.

- A senhora quer prestar queixa?

- Não! Eu só quero sair daqui! Fugir de tudo...

No alto-falante o vôo para Paris é anunciado.

-Está na minha hora. O senhor pode me ajudar? Eu estou muito abalada.

- Claro, senhora.

- Senhorita... – e sorri.

- Verônica tenta levantar a mala e cai (propositalmente). O policial a ampara pela cintura e carrega a bagagem. Já ao longe se ouve a voz de Leandro praguejando:

- Sua vagabunda!

Vão para aduana. Verônica olha profundamente nos olhos do policial.

- Você não sabe o quanto você foi importante para mim, neste momento...

O guarda sorri, meio que encabulado; levanta a mala e coloca-a na esteira. Ato contínuo, ajuda com as passagens junto à Polícia Federal.

Ela olha carinhosamente para o guarda e o beija no rosto.

- Muito obrigada...



 Escrito por Gilson às 09h19 [] [envie esta mensagem]



Ensaio nº 39 * Parte C

- De nada...Eu cumpri o meu dever – falou o guarda todo orgulhoso.

E foi assim que, – linda e loira, – Verônica entrou, sozinha, no continente europeu, com 300 gramas de cocaína e 100 gramas de pedras semipreciosas brasileiras...



 Escrito por Gilson às 09h18 [] [envie esta mensagem]



UM AMOR DE PRACINHA

 

Essa é uma estória dos tempos em que Nicolas Furi ainda era um jovem pracinha e gostava de sair a noite pra tocar violão nas serestas cariocas, onde cantava estridente os grandes boleros que embalaram o sonho dourado de sua geração. Frequentava sempre que possível a zona de boemia e prostituição do Rio, o problema era a falta de dinheiro para bancar as aventuras, mas dava pra tomar uma cerveja com os amigos e, de vez em quando, arrastar uma morena.

Nos dias de folga os pracinhas saíam aos montes, em disparada, sorridentes e felizes, para respirar os ares de liberdade do lado de fora do quartel. Todos muito bem arrumados, fardados e de banho tomado; exalavam vigor e juventude. Era curioso notar à espreita alguns senhores amaneirados rondando a praça da Liberdade no momento em que os soldados ganhavam as ruas pra gozar daquelas horas de folga. Discretamente assediavam os meninos, oferecendo um dinheirinho pra serem “discretamente” enrabados.

Menino criado no interior do Estado, Nicolas ficou profundamente indignado com aquelas abordagens indecentes, reagiu, como muitos, desdenhando, fazendo piadas de mau gosto, posteriormente chegou a bater boca com colegas de visão menos “ortodoxa”. Porém, com o passar do tempo viu que alguns praças embarcavam na aventura da qual saíam ilesos e ainda faturavam uma graninha pra curtir na zona, concluiu que besta era ele de não aproveitar aquela oportunidade.

Passado um tempo nosso bravo soldado se tornou um especialista nas putarias de viado, divertido contava que acabara tomando gosto pela prática e até desenvolvendo um estilo próprio de fazer “a coisa”. Muito orgulhoso de sua criatividade contava, por exemplo, que tinha desenvolvido um método em que, depois de gozar, costumava dar um violento cutucão na altura dos rins de seus parceiros. Com o susto e a dor os caras retraíam as partes baixas e a “arma” do soldado saía, lá mesmo de onde vocês estão pensando, limpinha e reluzente.

Um belo dia, um cara distinto e circunspeto o abordou sem muitas reservas e depois de uma rasteira negociação o contratou para o serviço. Combinaram, como pagamento, uma certa quantia, cinquenta contos vamos dizer, e lá se foram ao apartamento do coroa a fim de “quitar logo a fatura”. Furi conta que, diferente das outras vezes, o negócio acabou sendo um pouco mais demorado de maneira que ele acabou dormindo e consequentemente passando a noite toda na casa do cliente.

Nem bem o sol raiou e o rapaz já se paramentara todo, envergando outra vez a distinta e gloriosa farda verde oliva. Tomaram café juntos até que, já na porta da rua, foram acertar as contas e o cara jogou em sua mão uma quantidade de dinheiro menor do que fora combinado. Timidamente, o rapaz ensaiou um protesto encabulado olhando para aquelas notas gastas na própria mão, parecia um menino que os pais tinham prometido uma bicicleta e ganhara um estilingue:

- Pôxa doutor... mas só vinte mangos? -  O cliente retribuiu seu, não muito convincente, protesto com uma boa olhada desdenhosa e retrucou carinhosamente, lânguido poderia-se dizer.

- Qualé Furi... Você sabe que fez por amor.

                                                                                                                      Juca Magalhães



 Escrito por Gilson às 12h58 [] [envie esta mensagem]



Palimpsestos Marítimos nº 3

  

 

 

Por entre arbustos rasteiros da praia

me criei.

Foi ferindo meus pés descalços

nos espinhos da terra úmida

que inventei meu mundo

onde eu era caçador.

O que caçava até hoje eu não sei...

Talvez sonhos, que os flocos de neve,

do céu levavam

pra longe.

E, na saudade desses tempos

em eu que era rei,

encontrei hoje,

adulto desavisado,

o acalanto,

para uma vida,

sem flocos de neve,

sem espinhos da terra,

sem sonhos de viver

 



 Escrito por Gilson às 09h35 [] [envie esta mensagem]



Palimpsestos Marítimos nº 2

  

 

Na linha daquele horizonte marítimo,

sentado nas areias do tempo,

sentia o hálito da maresia,

o vento tenebroso e acalentador,

do fim das tardes.

E no mar

um caminho de fogo sempre se abria.

Poderia ter corrido por ele.

Meu Deus,

quantas vezes isso eu poderia ter feito!

Meu coração pedia,

batendo febril.

Mas...Preferi sonhar com o ocaso.

Preferi ficar na praia,

dolente a me perguntar:

Para onde vai o sol

quando se deita?

 



 Escrito por Gilson às 10h38 [] [envie esta mensagem]



Palimpsestos Marítimos nº 1

 

 

Deixava-me levar pelas falésias,

pelo vento, pela tarde.

Catava conchinhas como quem cata pensamentos.

Andava a esmo

por entre rochas

da qual sorvia a seiva salgada

do tempo.

Nas areias deitava

e dormia

e sonhava

com piratas, lobos do mar e tesouros.

Quão dourada era minha infância...

 



 Escrito por Gilson às 21h50 [] [envie esta mensagem]



Crítica ao Filme Alexandre - Parte 1

Eu sempre cometo o ato infame de ceder à propaganda da cultura de massa hollywoodiana e ir assistir ao “filme da hora”. Às vezes tenho decepções enormes (eu ainda tenho alguma espectativa...) ou então folgo-me em rir diante da idiotice do filme. Porém, desta vez, tive outras motivações para assistir a fita: o diretor Oliver Stone (um artista ortodoxo, mas provocante) e a indignação dos acadêmicos gregos e macedônios.

O filme tem o controle de qualidade para filmes épicos da velha Hollywood: é esplendoroso esteticamente. Seu roteiro – não linear – deixa a desejar pela complexidade desnecessária, inclusive com relação aos diálogos: a narrativa de Ptolomeu (um general de Alexandre que herdou o Egito do espólio do conquistador) aborda apenas alguns momentos (cruciais, é verdade...) da vida do herói.

Quanto à veracidade dos fatos, o diretor pecou em alguns momentos, em especial dois deles: quando Alexandre doma Bucéfalo (seu cavalo até à morte) de forma mágica e não segurando sua cabeça na direção ao sol como os próprios documentaristas da época relataram; e quando das bodas do pai: o diretor perdeu um excelente momento de expor uma das mais impressionantes frases de Alexandre: tendo desprezado Olímpia (mãe de Alexandre), o rei Felipe resolve casar-se oportunamente com uma princesa grega; neste casamento Alexandre tem sua primeira grande briga (oficial) com o pai. Filipe, no auge da contenda, indo ao encontro do filho para surrá-lo, cai bêbado no chão. Alexandre vira para os convivas e diz: “Este, senhores, é o Rei da Macedônia: um homem que tropeça ao passar de um leito para o outro". Uma frase insolente que demonstra a grandiosidade da personalidade do jovem.

Não há dúvida alguma que o filme encontra formas de provocar a invasão americana no Iraque, já que o conquistador alcança a mesma proeza, porém tratando-os com um respeito sequer visto atualmente. Impressiona o destemor do diretor no tratamento que dá à sexualidade de Alexandre; a forma explícita e terna com a qual ele narra a relação com Hefestion (até os historiadores costumam ser comedidos com esses fatos...).



 Escrito por Gilson às 10h45 [] [envie esta mensagem]



Crítica ao Filme Alexandre - Parte 2

Além de tudo, a película foi uma resposta à incompetência e mediocridade que reinaram na produção de Tróia – o mais desnecessário e ridículo dos filmes épicos de Hollywood (perde até mesmo para Cleópatra, que eu recomendo por ter se transformado em uma comédia “grandiosa” devido ao tratamento carnavalesco que os técnicos dão à maquilagem e aos figurinos, como também a alguns momentos do filme: a entrada de Cleópatra em Roma é imperdível!).

Porém o mérito de Stone está em como ele forja a personalidade de Alexandre, um ser repleto de contradições, medos, angústias, porém certo da única razão possível para a existência: a de se afirmar enquanto potência acima de qualquer ideologia ou moral. É assim que Alexandre marcha em direção à morte: afirmando a vida e todas contradições titânicas que se abrigam na alma humana.

É se impondo como ser desejante, destituído da culpa cristã e de todos os seus venenos debilitantes que ele se torna um ser Nietzscheano até à medula: homem do seu tempo, viveu com intensidade iconográfica o caos mental de um politeísmo sem fronteiras, que as eras vindouras haveriam de tentar organizar e dar sentido, à custa da morte – em vida – de todo ser que porventura caísse em suas armadilhas ideológicas.

Acima de qualquer exposição, Oliver Stone fala de um tempo em que o vir-a-ser era sentido como possível para os humanos; um tempo em que o homem, diante da natureza, encontrava o seu lenitivo absoluto: a possibilidade da vida diante da morte. Assim a grandiosidade do homem estaria na afirmação de seu corpo enquanto campo de contradições infindas por vontade de potência e não no soterramento, para o inconciente, dessas potências em prol de uma lógica cartesiana que, tendo prometido o paraíso ao homem, este apenas encontrou a desilusão, a morte em vida e – pior de tudo – uma prisão mental que a camisa-de-força da razão impõe de forma tão violenta quanto sorrateira.

Que isto sirva de alento a todos os contemporâneos que ainda acreditam nas filosofias decadentes que as burocracias nos fazem engolir para que morramos muito antes de termos nascido.



 Escrito por Gilson às 10h44 [] [envie esta mensagem]




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